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Frente Parlamentar debate inclusão de autistas nas igrejas e reúne experiências de acolhimento em Porto Alegre

29 de maio de 2026
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A Frente Parlamentar de Apoio aos Neurodivergentes: Direitos, Tratamento, Inclusão e Empreendedorismo realizou, na tarde do dia 29 de maio, uma reunião com o tema “Igrejas que Acolhem: Experiências e Caminhos na Inclusão do Autismo” e reuniu representantes de diferentes denominações religiosas, familiares, lideranças e profissionais que atuam na promoção da inclusão de pessoas neurodivergentes.

A iniciativa foi conduzida pela presidente da Frente Parlamentar, a Vereadora Psicóloga Tanise Sabino, que destacou a importância de ampliar o debate sobre inclusão para além dos espaços educacionais e de saúde. Segundo a parlamentar, o Evangelho é destinado a todas as pessoas e, por isso, as igrejas também precisam refletir sobre como acolher adequadamente crianças, adolescentes e adultos neurodivergentes. “Precisamos compreender que inclusão não é apenas permitir a presença física das pessoas nos cultos. É preparar toda a igreja para acolher, compreender e promover pertencimento. Os autistas crescem, tornam-se adolescentes, jovens e adultos, e precisamos pensar a inclusão ao longo de todo o ciclo de vida”, afirmou.

Tanise também chamou atenção para situações de capacitismo ainda vivenciadas por famílias em ambientes religiosos. “Já ouvimos relatos de famílias que foram constrangidas ou até convidadas a deixar cultos por conta do comportamento de seus filhos. Precisamos substituir o preconceito pela informação e construir uma cultura de acolhimento dentro das igrejas”, ressaltou.

A vereadora destacou ainda que pesquisas apontam as comunidades religiosas como importantes fatores de proteção para a saúde mental e reforçou que a inclusão deve ser entendida como um compromisso coletivo. “A igreja historicamente sempre esteve na linha de frente do cuidado com as pessoas. Precisamos continuar honrando essa vocação.”

Também participou da abertura o deputado estadual Sabino, que elogiou a iniciativa e ressaltou o caráter inovador do debate: “Em diversos seminários internacionais dos quais participei sobre infância, adolescência e desenvolvimento humano, raramente vi a temática da inclusão nas igrejas sendo tratada com a profundidade que estamos construindo aqui. Por isso, parabenizo a vereadora Tanise e todos os envolvidos por colocarem este tema em evidência”.

 

Experiências de acolhimento

Representando o projeto Encontros de Fé, da Igreja Encontros, Bárbara Capra apresentou a experiência da equipe de acolhimento criada para receber crianças neurodivergentes e suas famílias. Bárbara explicou que a equipe é formada por voluntários de diferentes áreas profissionais e que o foco principal está na escuta das famílias e na adaptação dos ambientes para garantir participação e pertencimento. “Muitas famílias chegam até nós carregando experiências de julgamento e exclusão. Quando encontram acolhimento, sentem alívio. Nosso objetivo é garantir que cada criança possa participar das atividades da forma como consegue, respeitando suas particularidades.”

Outra experiência compartilhada foi a do Ministério Acolher, da Igreja Reviver Porto Alegre, apresentada por Fernanda Reis. Ela explicou que o projeto nasceu a partir da percepção de que muitas famílias neurodivergentes se sentiam invisíveis dentro dos espaços religiosos. “A ideia dos encontros é dizer para essas famílias que elas pertencem a este lugar.” Fernanda relatou que existe um espaço de acolhimento sensorial itinerante nos dias de culto e para as crianças do ministério kids. Todos são acolhidos por voluntários na recepção e são disponibilizados abafadores e assentos reservados. “A intenção nunca é separar ou excluir. Pelo contrário. Caso necessite, a criança vai para um ambiente preparado para se reorganizar e, assim que possível, retorna para participar normalmente da programação no ambiente coletivo. O objetivo é sempre a inclusão.” Ela também ressaltou que o principal recurso para promover acessibilidade não é estrutural, mas humano. “Acima de tudo, é preciso ter amor, intenção e disposição para enxergar o outro.”

 

Inclusão como cultura da igreja

Durante o encontro, representantes de diferentes ministérios reforçaram que a inclusão não deve ser vista como responsabilidade de um único departamento, mas como uma cultura construída por toda a comunidade de fé. Representando a Igreja Mont Serrat, o casal Miguel Ângelo Schmitt e Tiessa compartilhou a experiência de desenvolver uma abordagem baseada no pertencimento. “Nós costumamos dizer que não trabalhamos com inclusão, porque ninguém está fora. Recebemos corações, não diagnósticos.” Eles destacaram a importância de envolver toda a família nas atividades e de ajudar a comunidade a compreender melhor as características de cada criança. “Muitas vezes o que fazemos é emprestar nossos óculos para que outras pessoas consigam enxergar aquilo que os pais já conhecem sobre seus filhos.” Segundo eles, quando o amor se torna fundamento, as estruturas necessárias acabam sendo construídas naturalmente. “Não é preciso começar com algo grandioso. Pequenos gestos de acolhimento já transformam a experiência das famílias.”

O encontro também contou com a participação do Pastor Rodrigo Tavares, da Igreja Família Kohani, que enfatizou que a natureza da igreja é o acolhimento e por isso a importância de viver a inclusão no dia a dia das atividades comunitárias. Ele compartilhou a iniciativa da instituição e construir uma sala sensorial na Igreja , para que as famílias possam participar

Régis Souza, da Igreja Ágape de Santa Maria, contou como o trabalho de inclusão começou a partir da necessidade de uma família e acabou crescendo até o atual patamar – no qual a igreja recebe 24 famílias atípicas.”É muito mais uma vontade de acolher do que recursos materiais: assim começou o acolhimento em Santa Maria a partir de uma família,  uma doação, e depois outra, e a notícia foi se espalhando.” – relata empolgado Régis que entende também que este movimento de receber famílias atípicas é uma aprendizagem para toda a comunidade de fé.

Durante a reunião, os participantes também conheceram o trabalho desenvolvido pela Rede de Apoio às Famílias Atípicas (RAAFA), iniciativa vinculada à Igreja Adventista do Sétimo Dia que atua na capacitação de comunidades religiosas para o acolhimento de pessoas com autismo, síndrome de Down, paralisia cerebral, TDAH e outras condições. O case apresentado por Keiny Goulart apresentou ações de conscientização, formação de voluntários, apoio às famílias e a implantação de espaços de acolhimento e regulação sensorial em igrejas e eventos, demonstrando como instituições comunitárias podem contribuir para a inclusão, o pertencimento e a participação social das pessoas com deficiência e suas famílias.

Um dos depoimentos marcantes da reunião foi o de Matheus Leitão de Lemos, autista, pai atípico e integrante da Assembleia de Deus. Em sua fala, ele relembrou as dificuldades enfrentadas por pessoas autistas nas igrejas há algumas décadas, quando comportamentos hoje compreendidos como características do transtorno eram frequentemente interpretados como falta de disciplina ou até questões espirituais. Matheus destacou a importância do acolhimento recebido de sua mãe, que nunca desistiu dele, mesmo diante da incompreensão de muitas pessoas. Atualmente pai de quatro filhos, entre eles um adolescente autista, ele ressaltou que a inclusão nas igrejas passa não apenas pela criação de espaços adaptados, mas também pela mudança de cultura entre os membros. “Uma das maiores barreiras ainda são os olhares e os julgamentos. Precisamos compreender que nem todos percebem o mundo da mesma forma”, afirmou. Ele também relatou a experiência do filho, que utilizava abafadores de som para participar dos cultos e que hoje busca maior autonomia, ilustrando os desafios vividos por adolescentes autistas. Ao final, emocionou os presentes ao contar o caso de uma criança autista que, ao vê-lo pregando com um chaveiro de capivara, aproximou-se espontaneamente e permaneceu ao seu lado durante toda a mensagem. “Os pais me disseram que foi a primeira vez que alguém em uma igreja compreendeu verdadeiramente a situação do filho deles. É disso que estamos falando quando falamos de inclusão: pertencimento, acolhimento e compreensão”, concluiu.

Núbia Cunha, da MEVAN, relatou a experiência da ONG TEA – Trazendo Esperança e Amor, criada há cerca de um ano a partir da iniciativa de uma igreja da Zona Norte de Porto Alegre. Segundo ela, o projeto surgiu da necessidade de apoiar famílias de crianças neurodivergentes que enfrentam dificuldades para acessar atendimentos especializados. A ONG reúne voluntários de diversas áreas, como psicologia e psicopedagogia, que oferecem avaliações e atendimentos gratuitos, ampliando o acesso ao cuidado e ao suporte às famílias.

Para Tanise Sabino, a reunião cumpriu seu principal propósito: “Quando compartilhamos experiências, aprendemos uns com os outros e percebemos que a inclusão é possível. O desafio não é apenas adaptar espaços, mas construir comunidades onde cada pessoa seja vista, respeitada e valorizada como parte essencial do corpo de Cristo.”

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