No último dia 5 de junho, na Câmara Municipal de Porto Alegre foi realizada a reinstalação da Frente parlamentar de Prevenção ao Suicídio e Automutilação. A Frente foi proposta e é presidida pela Vereadora Psicóloga Tanise Sabino (MDB). O encontro teve como tema “Sobreviventes e Enlutados: A Dor que Precisa ser Ouvida” e foi marcado por depoimentos emocionantes, falas técnicas e um ambiente de escuta sensível.
A reunião reuniu especialistas, lideranças institucionais e familiares impactados diretamente pela temática do suicídio. Estiveram presentes: o secretário municipal de Saúde, Fernando Ritter; o representante do Hospital Psiquiátrico São Pedro, Dr. Alceu Gomes Filho; a representante do CVV, Adriana Costa; o presidente da UMERGS, Cel. Salomão Fortes; representando o Governo do Estado, o psicólogo Bruno Moraes da Silva, integrante do Comitê Estadual de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio; os representantes da ABRASES, Terezinha e Joseval Máximo, que vieram do estado de São Paulo; e a Gisele Severo, idealizadora do projeto Vozes.
Durante o encontro, foram discutidos os impactos emocionais do suicídio nas famílias, a importância da escuta ativa e do acolhimento às pessoas enlutadas e sobreviventes, bem como os desafios das políticas públicas na prevenção ao suicídio e automutilação. Para a vereadora Tanise Sabino, a Frente Parlamentar cumpre um papel essencial ao criar espaços seguros para diálogo e ação: “Não se trata apenas de prevenir números. Não estamos falando somente de números. E sim de vidas, de histórias…e precisamos ouvir essas histórias, acolher dores e trabalhar por uma cidade onde a vida seja sempre a prioridade.” A parlamentar também compartilhou sua intenção em trabalhar forte não apenas na prevenção, mas também na posvenção pois é preciso acolher os sobreviventes enlutados por suicídio.
Tanise também lembrou da Lei Nº 13.819, de 26 de abril de 2019, que Institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio e que precisa ser regulamentada: “leis temos muitas, mas precisamos de ações. E esta frente se propõe a isso também: pressionar para que as articulações sejam feitas e as ações saiam do papel”.
O Secretário Municipal de Saúde, Fernando Ritter iniciou sua fala destacando que a insistência de Tanise já rendeu frutos para o fortalecimento da Saúde Mental: “Neste sentido, gostaria de destacar e elogiar o esforço da Tanise, nos últimos quatro anos de seu mandato além da luta que ela já tinha com relação a psicólogos nas escolas ela também se determinou a colocar psicólogos nas unidades básicas de saúde. E conseguiu! Hoje temos não somente psicólogos, mas psiquiatras, educadores físicos, nutricionistas e fisioterapeutas em 43% da rede da atenção primária”. Ritter também destacou que não é possível olhar apenas para a dor física e biológica, mas também é importante cuidar do mental e neste sentido compartilhou que no trabalho das equipes multidisplinares que já estão em quase metade das unidades de saúde, o foco tem sido a saúde mental. Com mais de seis meses de atuação, o trabalho destas equipes, já apresentam como resultado uma diminuição significativa nas demandas de encaminhamento para tratamento especializado em saúde mental, com a redução chegando a 80% em algumas regiões. Tendo em visto que muitos dos casos de ideação suicida e automutilação são reincidências, ele também destacou a boa perspectiva que há com a implantação de cinco novos CAPS em Porto Alegre, sendo dois deles infantis: “Assim, teremos mais condições de oferecer um atendimento continuado, evitado reinternações”.
Em sua fala, Adriana Costa, presidente do CVV iniciou com uma informação contundente: “O suicídio mata mais do que as guerras”. Ela também compartilhou a sua crença de que a prevenção passa necessariamente pela educação e neste sentido elogiou também a presença de dirigentes escolares na Frente Parlamentar. Dito isso, elafalou sobre o trabalho realizado pelo CVV, dividindo também com o público presente dicas simples de como falar com pessoas com ideação suicida e mesmo com sobreviventes enlutados. “O ouvir atento é o início de tudo: a gente tem que aprender a ouvir, com total atenção, precisamos conversar sem estar olhando no celular” – alertou Adriana.
O presidente da UMERGS, Coronel e também Pastor Salomão, representando a Igreja Evangélica Assembleia de Deus, compartilhou o trabalho realizado pela instituição há mais de 30 anos, sempre com a preocupação de levar conforto e empatia ao brigadiano, ao bombeiro, a todos os profissionais que estão no fronte, defendendo os cidadãos e que muitas vezes também precisam de apoio: “nós sempre orientamos o capelão que ele mais tem que ouvir do que falar, lembrando que por isso temos dois ouvidos e apenas uma boca” – brincou Salomão.
O psicólogo Bruno Moraes da Silva, do Comitê Estadual de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio, concordou com os demais integrantes da mesa, sobre a importância de falar de suicídio e prevenção ao ano inteiro, destacando: “Esta não é só uma pauta necessária, mas também urgente. E não é apenas da saúde, mas transdisciplinar: precisamos envolver a educação, assistência social, saúde”. Ele compartilhou um pouco do trabalho que o comitê vem realizando, com destaque ao fomento da criação de comitês regionais e municipais – para que o tema possa ser trabalhado 12 meses por ano – e também do esforço de resgatar os dados de pessoas que tiveram suas esperanças apagadas.
O Casal Terezinha e Joseval Máximo, da Associação Brasileira de Apoio aos Sobreviventes Enlutados por Suicídio (ABRASES) que vieram de São Paulo especialmente para participar da Frente, compartilharam um pouco de sua história pessoal. Terezinha deixou bem claro: “O luto ainda é muito solitário…e ainda existe muito preconceito”.
Gisele Severo, do projeto Vozes, que conheceu Tanise Sabino durante uma caminhada do Janeiro Branco, de promoção a saúde mental, emocionou a plateia compartilhando a perda de seu filho e confessando que ela mesma, enquanto empresária, lembra de ter rejeitado a proposta de trabalhar o Setembro Amarelo na empresa em que trabalha e como hoje entende que isso é fundamental, pois, infelizmente este é uma assunto de todos nós e muitas vezes o sofrimento não é aparente: “Somente trazendo esta temática constantemente vamos quebrar estereótipos e tabus que ainda existem em torno da saúde mental”.
A frente parlamentar também teve como objetivo lançar a cartilha “Palavras que abraçam” organizada pela Abrases que, de uma forma leve e didática oferece apoio à Jornada de Luto por Suicídio. A cartilha foi impressa pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do sul, através do deputado Sabino, tendo uma tiragem inicial de 1.000 exemplares.
No final da reunião, Tanise entregou um relatório das atividades realizadas pela Frente em seu mandato anterior e já anunciou a continuidade dos trabalhos, com a realização de novas reuniões, articulações com a rede de saúde mental e iniciativas de mobilização social. O objetivo é fortalecer as estratégias de prevenção ao suicídio em Porto Alegre, promovendo dignidade, cuidado e esperança.


