As redes sociais foram o centro de um importante debate realizado nesta terça-feira, 10 de junho, na Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS) com a realização do Seminário “ O Impacto das Redes Sociais na Saúde Mental na Vida Adulta ”, que reuniu especialistas para discutir os impactos da vida online em nossa autoestima, produtividade e bem-estar dos adultos. O evento foi concebido em parceria pela Frente de Promoção à Saúde Mental da Câmara de Vereadores, presidida pela Vereadora Psicóloga Tanise Sabino, e pela AMRIGS.
O presidente da AMRIGS e anfitrião do evento, Dr. Gerson Junqueira Jr. fez um saudação na abertura do seminário, destacando a importância da pauta do seminário e da produção de informação: “É uma honra dar as boas-vindas a todos neste seminário. Hoje celebramos não apenas a importância da saúde mental, mas também o poder das parcerias comprometidas com o bem-estar coletivo. Quero saudar, com especial entusiasmo, a vereadora e psicóloga Tanise Sabino, cuja atuação incansável tem sido fundamental para avançarmos em políticas públicas sensíveis e eficazes nesta área. Sua dedicação tem rendido frutos concretos, e é motivo de orgulho para todos nós estarmos juntos nesta jornada”.
Na abertura do evento a psicóloga Tanise Sabino trouxe vários questionamentos para a plateia, lembrando o seminário realizado em maio, quando foi discutido o impacto das redes sociais na infância e adolescência e como muitas vezes os adultos acabam repetindo as situações que condenam nos jovens: “talvez seja hora de pararmos de apontar o dedo e começarmos a refletir sobre nossos próprios hábitos. O uso excessivo das telas não é apenas um desafio da infância — é um fenômeno que atravessa gerações, afeta vínculos, rouba nosso tempo e, muitas vezes, nos distancia da vida real”. Assim, Tanise destacou a reponsabilidade de cada um no processo de promoção da saúde mental: “Como psicóloga e vereadora, eu carrego comigo duas convicções: primeiro, que saúde mental não é luxo, não é coisa para rico, — saúde mental é uma necessidade básica, para todos e o ano inteiro. É um direito. E segundo, que falar sobre saúde mental é um ato de cuidado coletivo que inicia no compromisso individual.”
Foi dentro desta mesma lógica que a psicóloga Carolina Lisboa iniciou a sua palestra afirmando: “É importante evitar demonizar as tecnologias, o importante é aprender a conviver. A culpa não é das tecnologias por sí só: ela pode ser risco ou proteção – e isto depende de nós!”. A profissional destacou que as redes acabam por moldar nossa autoestima e autopercepção e por isso enfatizou a importância de que as pessoas aprendam a lidar com o desconforto muitas vezes gerado pelo uso excessivo de redes e que tenham a certeza de que não é preciso estar 100% feliz o tempo: “a felicidade não é estanque, não é universal” – frisou Carolina. Ela também destacou a necessidade de cada indivíduo estabelecer propósitos de vida “além das redes” e com isso deixar de lado as interações passivas geradas pelas redes, que acabam por afetar a autoperceção e o julgamento.
O médico Fabio Dantas lançando uma provocação à plateia: “fora do ambiente de trabalho estamos trabalhando a todo o momento. Onde está a fronteira entre trabalho e vida pessoal? Essa fronteira está muito acinzentada e isso é um grande perigo. Quantas vezes vocês checam redes sociais ao longo do dia?”. Dito isso, ele colocou abaixo o “mito” do multitarefas, salientando que há um custo cognitivo neste processo de estar hiperconectado, que impacta a memória e traz à tona um conceito que segundo ele precisa ser mais estudado: o presenteísmo, quando as pessoas estão de corpo presente mas de mente ausente. “As empresas deveriam começar a ter presente esta questão, pois pode afetar a produtividade até mais do que o absenteísmo”. Mesmo trazendo os “contras”, Dantas frisou em vários momentos de sua fala que a tecnologia não pode ser ignorada, mas que precisa ser encarada como uma ferramenta, e como tal um forma poderosa de agilizar processos. “O fator humano jamais será superado pela tecnologia, pois a energia humana é um diferencial poderoso” – reiterou Fábio, lançando o desafio para que os presentes criem seu próprio “plano de equilíbrio digital”, traçando objetivos realistas, implementando as práticas e avaliando ou revendo os objetivos se for o caso: “Não adianta proibir o celular: cada um precisa aprender os seus limites e trabalhar em seu plano personalizado de se relacionar com o digital”, concluiu Fábio.
A psiquiatra Carla Bicca surpreendeu a plateia ao responder rapidamente as perguntas trazidas como tema de sua palestra: “Como as mídias sociais afetam a vida adulta? São vilãs ou aliadas”, ao elencar uma série de vantagens e desvantagens da utilização das redes sociais: “ou seja: tudo que é bom, pode ser ruim” – concluiu aparentemente a Dra. Bicca. Contudo, ela fez uma reviravolta surpreendente em sua palestra, ao iniciar o compartilhamento de dados sobre uso e acesso à internet no Brasil, chegando a um placar no mínimo, surpreendente: “No Brasil existem 29 milhões de analfabetos funcionais, 36 milhões de pessoas sem acesso à internet e 76 milhões de pessoas sem saneamento básico. Ou seja: a internet, que não é uma necessidade básica, e nem ao menos reduz o analfabetismo funcional, cresceu infinitamente mais do que algo que é básico: o saneamento. Se por um lado isso parece bom – me refiro ao acesso crescente e equitativo das pessoas à internet, eu, por outro lado, como profissional especializada em adições, vejo isso como um sinal de grande alerta, pois quanto maior é o número de pessoas com acesso internet, maior pode ser o número de pessoas vulneráveis à adição. Isto me parece um indício de uma epidemia ou ainda pior, mais amplo, de algo que não quero nem mencionar aqui”. Seguindo na apresentação e análise de dados de acesso à internet, Carla Bicca ainda destacou que, como psiquiatra, um dos transtornos mentais que mais preocupa os profissionais da saúde mental é a esquizofrenia – que atinge cerca de 1% da população – contudo este percentual já é superado largamente pelas pessoas que a partir do uso da internet manifestam adição por apostas. “Assim a relação dos adultos com as redes é, de forma incontestável uma questão de saúde pública, que pode comprometer a saúde mental, como por exemplo a ansiedade, que cresceu muito é pode ser oriunda do vício em redes sociais”.
Finalizando o seminário, a Dra. Illana Fermann trouxe instigantes questionamentos a partir de sua vivência clínica e acadêmica: “Por que precisamos falar sobre este tema? Porque a vida do próximo se transformou em entretenimento, porque as redes criam uma falsa intimidade, quando na realidade o que vemos é a dificuldade cada vez maior das pessoas desenvolverem habilidades sociais em um mundo real: o que importa na vida são as relações e para isso, precisamos de conexões, mas conexões reais” – destacou Ilana. Ela também questionou a plateia, destacando que ao cogitarmos a necessidade de um “detox digital” é preciso aceitar que estamos intoxicados. Contudo, ela, em consonância com os demais participantes, também destacou que não se trata de proibir o uso de redes, mas sim de estabelecer limites e pausas.


