Na tarde do dia 24 de abril de 2025, a Câmara Municipal de Porto Alegre foi palco de um importante evento voltado à conscientização e ao debate sobre saúde mental: o seminário “TEA, TDAH e TOD: Como Lidar? – Para quem convive, educa e cuida”, promovido pela Frente Parlamentar da Saúde Mental, presidida pela vereadora psicóloga Tanise Sabino
Com o plenário Ana Terra lotado, o seminário trouxe à discussão temas fundamentais sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno Opositivo Desafiador (TOD), reunindo profissionais da saúde, da educação, conselheiros tutelares, estudantes e familiares
Durante a abertura, a vereadora Tanise Sabino destacou a importância do debate e celebrou uma nova conquista:”É com muita alegria que hoje, além de realizarmos esse seminário, damos início oficial à Frente Parlamentar de Apoio aos Neurodivergentes: Direitos, Tratamento, Inclusão e Empreendedorismo. No dia 02 de abril, justamente no dia mundial de conscientização do autismo, foi aprovada, aqui na Câmara de Vereadores, o meu requerimento para a instalação da Frente Parlamentar de Apoio aos Neurodivergentes: Direitos, Tratamento, Inclusão e Empreendedorismo. E nessa tarde, aqui nesse seminário, com cada um de vocês, quero dar então como instalada essa frente parlamentar, a qual sou presidente. Então essa frente parlamentar irá discutir, não somente o autismo, mas sobre as pessoas neurodivergentes, que são aquelas cujo funcionamento neurológico — ou seja, a forma como o cérebro percebe, processa e responde ao mundo — é diferente do que é considerado “neurotípico”. Neurodivergente é um termo que reconhece que existem diferentes formas de pensar, aprender, sentir e se comportar, e que essas diferenças não são defeitos ou doenças, mas variações naturais da mente humana. Os neurodivergentes, inclui condições como autismo, TDAH, dislexia, Síndrome de Tourette, Altas Habilidades/Superdotação entre outras. Entendo que estamos dando mais um passo fundamental no caminho da inclusão com a instalação desta frente. Nosso intuito é fortalecer a representatividade e a inclusão, dando voz a quem vive a neurodiversidade e a quem caminha ao seu lado.
A programação do evento contou com a participação de renomados especialistas. Dr. Alceu Gomes abriu o ciclo de palestras abordando o manejo do Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) em crianças. Ele alertou: “O TOD é mais do que uma simples fase de desobediência infantil. Trata-se de um padrão persistente de humor irritável, comportamento desafiador e atitudes vingativas que, se não for reconhecido e tratado adequadamente, pode evoluir para problemas sérios, como transtornos do humor, evasão escolar e, em alguns casos, até risco de suicídio. A intervenção precoce e a compreensão do ambiente familiar são fundamentais para mudar essa trajetória.”Ele também destacou que o manejo clínico do TOD deve envolver uma abordagem integrada, com psicoterapia parental, intervenções ajustadas ao perfil sensorial da criança e, em casos necessários, uso de medicações para tratar comorbidades associadas.
Dr. Eugênio Grevet, professor da UFRGS e especialista em TDAH adulto, falou sobre o diagnóstico e tratamento do transtorno na vida adulta. Ele destacou: “O TDAH não é uma fase da infância. É uma condição que, se não tratada, compromete o desempenho acadêmico, profissional e social na vida adulta. Reconhecer e intervir faz toda a diferença na qualidade de vida.”
Dra. Talita Poli Biason, médica pediatra e hebiatra, que veio de São Paulo, especialmente para palestrar no seminário, desmistificou o uso medicinal do canabidiol em transtornos do neurodesenvolvimento. Dra. Talita esclareceu muitos mitos e verdades sobre o tema. Ela explicou que o canabidiol (CBD) é um composto da planta Cannabis sativa, diferente da maconha recreativa, por ser extraído de variedades controladas, com alta concentração de CBD e baixo teor de THC. Em sua fala, destacou: “Cannabis medicinal é diferente da maconha comum. É produzida a partir de variedades específicas, com processos rigorosos de controle, e pode ser uma alternativa terapêutica segura para casos selecionados, como em transtornos do espectro autista. No entanto, seu uso precisa ser avaliado caso a caso, sempre como um complemento e nunca substituindo os tratamentos tradicionais.”
Renata Viola, psicóloga, falou sobre o crescimento dos diagnósticos de autismo, as diferenças entre gêneros e o impacto do diagnóstico na vida adulta. Em sua fala, Renata destacou: “O autismo não é algo que simplesmente nasce pronto. Ele é um distúrbio do neurodesenvolvimento, que se constrói ao longo do tempo. Se conseguirmos identificar sinais de risco já aos quatro meses de idade e intervir precocemente, podemos alterar trajetórias de desenvolvimento e, em alguns casos, até atenuar os sintomas autísticos. A plasticidade cerebral nos primeiros anos de vida é uma oportunidade de ouro que não podemos desperdiçar.” Renata também reforçou que a ampliação dos diagnósticos hoje se deve não apenas ao aumento da conscientização e ao avanço dos critérios diagnósticos, mas também a fatores ambientais, genéticos e sociais.
Eduarda Vargas, pedagoga e coordenadora terapêutica do Instituto Colo de Mãe, compartilhou a experiência da ONG no apoio a famílias atípicas. Ela trouxe uma reflexão sensível e prática sobre o impacto do diagnóstico de autismo nas famílias e o papel fundamental das redes de apoio. Em sua fala, ela destacou: “O diagnóstico de autismo muda toda a vida de uma família. Muitas vezes, é acompanhado de solidão, pressão emocional e insegurança. O Instituto Colo de Mãe nasceu justamente para acolher essas famílias, oferecendo amparo, psicoeducação, capacitação e pertencimento. Acreditamos que é possível transformar trajetórias quando a intervenção é feita com afeto, ciência e respeito à história de cada um.” Eduarda também relatou o trabalho realizado pelo Instituto durante as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, com a criação de um abrigo dedicado às famílias PCDs, reafirmando a missão de protagonizar a inclusão e combater a invisibilidade social dessas famílias.
O seminário reforçou a necessidade de diagnóstico precoce, acolhimento e inclusão, tanto na educação quanto no mercado de trabalho, além de promover a troca de experiências entre os presentes.
“Eventos como este são fundamentais para quebrarmos preconceitos, ampliarmos o conhecimento e darmos suporte real às famílias e profissionais que convivem com a neurodiversidade”, ressaltou Tanise.
O seminário também marcou a ampliação das ações da Frente Parlamentar da Saúde Mental, que continuará promovendo debates, eventos e articulações em prol da saúde emocional e da inclusão em Porto Alegre.


