A Câmara Municipal de Porto Alegre sediou, no dia 25 de setembro, a terceira reunião da Frente Parlamentar em Apoio aos Neurodivergentes: Direitos, Tratamento, Inclusão e Empreendedorismo, presidida pela vereadora psicóloga Tanise Sabino (MDB). O encontro reuniu profissionais da saúde, representantes de entidades, familiares e pessoas autistas, em um espaço de diálogo sobre o futuro do novo Centro de Referência em Transtorno do Espectro Autista (CERTA+), que atenderá adolescentes e adultos a partir dos 12 anos de idade.
A pauta central foi “Qual o tratamento que queremos para o novo CERTA+?”, em um debate que buscou ouvir diferentes perspectivas para a construção de um modelo inclusivo e eficaz. A vereadora destacou que a definição do funcionamento do serviço precisa ser coletiva: “Queremos ouvir não apenas os especialistas, mas também os pais e as mães que convivem diariamente com os desafios do autismo. O CERTA+ precisa ser construído com base nas necessidades reais da comunidade”, afirmou Tanise Sabino.
Entre os principais pontos debatidos esteve a continuidade do cuidado. Representantes reforçaram que o CERTA, hoje voltado para crianças até 12 anos, não pode ser um espaço de “interrupção” do tratamento, mas sim de transição para o CERTA+, garantindo atendimento adequado para adolescentes e adultos.
O Dr. Ricardo Nogueira, do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), ressaltou a importância de contar com especialistas qualificados em todas as áreas do atendimento ao autismo, além do acolhimento às famílias. Já o advogado Rafael Goschi, da OAB/RS, chamou a atenção para a urgência de diagnósticos ágeis: “O CERTA+ deve trazer diagnóstico precoce e garantir que o atendimento respeite a necessidade do laudo médico. Não podemos aceitar filas de 300 ou 400 dias. O tratamento precoce faz toda a diferença na vida da criança e da família”.
O psiquiatra Dr. Alceu Gomes destacou o pioneirismo do Rio Grande do Sul e a necessidade de inovação: “O Estado sempre esteve à frente nas políticas de saúde mental. O CERTA foi construído com muito esforço coletivo, mas ainda não é o ideal. O desafio agora é ampliar a estrutura para adolescentes e adultos, garantindo autonomia e inclusão social”.
Na mesma linha, a profissional do CERTA Josiara Souza defendeu que o novo serviço tenha espaços para oficinas, esporte e teatro, promovendo desenvolvimento integral.
As falas das famílias emocionaram o plenário. Annelise Martins, secretária da Associação Inclusive RS, relatou que esperou 422 dias por uma vaga: “Quando meu filho entrou, vi mudanças reais no comportamento e na autonomia dele. Além da terapia, precisamos de apoio para os pais, que muitas vezes só querem ser ouvidos”.
A dentista e pesquisadora Sinara Wermuth reforçou a necessidade de educação permanente, organização da demanda e orientação parental. Já Maicon, pai do estudante Maike, criticou a estrutura atual do CERTA: “O espaço foi feito às pressas, as salas são pequenas e não comportam a demanda. Além disso, quando as crianças criam vínculo com os profissionais, eles logo mudam de local de trabalho. O ideal seria a realização de concurso público”.
A professora Denise Lara, mãe atípica da rede municipal, fez um desabafo: “Tudo é muito. Muito caro, muito demorado, muita fila. Para conseguir tratamento pelo SUS, tudo leva tempo demais”.
Outro tema de destaque foi a necessidade de regionalização do serviço, com a criação de polos do CERTA+ em diferentes bairros, como Restinga, Rubem Berta e Lomba do Pinheiro, aproximando o atendimento das famílias que mais necessitam.
Ao final, a vereadora Tanise Sabino reafirmou o compromisso da Frente Parlamentar em consolidar as contribuições em um relatório oficial: “Estamos construindo juntos um documento com as falas das famílias e especialistas, que será entregue ao prefeito Sebastião Melo e ao secretário de Saúde. Não podemos ter pressa, precisamos de um modelo que seja melhor do que o atual CERTA e que prepare Porto Alegre para o futuro”.
A próxima etapa será a sistematização de todas as propostas apresentadas, que irão orientar a Prefeitura na construção do novo modelo de referência para o atendimento ao autismo na capital gaúcha.
Terceira reunião da Frente Parlamentar debate modelo de tratamento para autistas no novo CERTA+ em Porto Alegre


