Promovido pela Frente Parlamentar Estadual de Defesa dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes, presidida pelo deputado estadual Sabino, o V Seminário da Infância e Adolescência reuniu, na tarde de quinta-feira, 28 de maio, autoridades, profissionais da rede de proteção, conselheiros tutelares, educadores, profissionais da saúde, da assistência social e da segurança pública para discutir uma pauta urgente e permanente: a proteção de crianças e adolescentes diante da violência sexual.
Com o tema “Rompendo o Silêncio: Enfrentando o Abuso Sexual Infantil com Informação e Responsabilidade”, o encontro teve como objetivo ampliar o debate sobre prevenção, acolhimento, escuta qualificada e fortalecimento das redes de proteção. A abertura oficial contou com a presença do presidente da FAMURS, prefeito Ique Vedovato, além do deputado estadual Sabino e da Vereadora Psicóloga Tanise Sabino.
Durante sua fala de abertura, o deputado Sabino destacou que o tema exige coragem e comprometimento da sociedade e do poder público. “Esse não é um tema simples. Não é confortável. Mas é necessário. Quando falamos de violência sexual contra crianças e adolescentes, estamos falando de uma das formas mais graves de violação de direitos. E talvez uma das mais difíceis de enfrentar, porque muitas vezes acontece justamente onde deveria existir proteção e confiança”, afirmou.
Sabino também ressaltou a importância de promover seminários com conteúdo técnico e espaço para escuta e troca entre os participantes. “Este ambiente se torna um ambiente de proteção, um ambiente de acolhimento e aprendizado. Muitas pessoas chegam aqui carregando dores, dúvidas e experiências difíceis. Por isso, reunir especialistas e abrir espaço para perguntas e diálogo é fundamental para fortalecer quem atua diariamente na proteção da infância”, completou.
A Vereadora Psicóloga Tanise Sabino enfatizou a importância de romper o silêncio em torno do tema e fortalecer as políticas públicas de prevenção. “Precisamos falar sobre abuso sexual infantil porque o silêncio nunca protegeu nenhuma criança. Muitas vezes, ele protege quem pratica a violência. Romper o silêncio exige responsabilidade. Exige que profissionais saibam identificar sinais, que famílias saibam ouvir, que escolas saibam acolher e que instituições saibam agir”, declarou.
Tanise também destacou os impactos profundos da violência sexual no desenvolvimento emocional das vítimas. “Poucas violências produzem impactos tão profundos quanto a violência sexual na infância. Ela pode afetar autoestima, vínculos, desenvolvimento emocional, sensação de segurança e confiança ao longo de toda a vida. Por isso, informação, escuta e redes preparadas são formas concretas de proteção”, afirmou.
A programação contou com palestras de especialistas de diferentes áreas. A Dra. Silzá Tramontina abordou os impactos da violência sexual sob a perspectiva da saúde mental e destacou a complexidade do tema. “Este é um tema de extrema relevância clínica e social, envolvendo complexidades jurídicas, epidemiológicas e neurobiológicas. A compreensão do impacto da violência sexual na infância e adolescência exige uma análise do trauma não apenas como um evento isolado, mas como um determinante de saúde ao longo de todo o ciclo vital”, explicou. Segundo ela, o trauma pode alterar o desenvolvimento cerebral, impactando a aprendizagem, a memória, a regulação emocional e a capacidade de estabelecer vínculos seguros ao longo da vida. “Muitas vezes, as consequências do abuso não são imediatamente visíveis. A criança pode apresentar queda no rendimento escolar, isolamento, agressividade, alterações do sono, dores físicas sem causa aparente ou dificuldades de concentração. Esses sinais precisam ser compreendidos como possíveis pedidos de ajuda”, explicou. A especialista destacou que o cérebro infantil é altamente sensível às experiências vividas e que o estresse tóxico provocado pela violência pode afetar estruturas responsáveis pela memória, pelo controle dos impulsos e pela percepção de segurança. “O abuso sexual não deixa apenas uma ferida emocional. Ele pode modificar a forma como a criança percebe o mundo, as pessoas e a si mesma. Muitas passam a viver em estado permanente de alerta, como se o perigo estivesse sempre presente”, afirmou.
Na sequência, Cátia Goulart emocionou os participantes ao compartilhar o depoimento sobre a história de seu filho Andrei, trazendo um relato marcado pela dor, mas também pela busca de conscientização e proteção de outras crianças e famílias. Com coragem e sensibilidade, ela relembrou a dor vivida por sua família diante da violência sofrida, mas transformou sua experiência em uma mensagem de conscientização e esperança. Em sua fala, destacou a importância de acreditar nas crianças, de romper o silêncio que muitas vezes cerca os casos de abuso e de fortalecer a rede de proteção para que outras famílias não precisem enfrentar o mesmo sofrimento. Cátia também ressaltou que a prevenção, a informação e a escuta atenta podem salvar vidas e evitar que inúmeras crianças carreguem, por toda a vida, as marcas de uma violência que poderia ter sido interrompida mais cedo.
A Dra. Cinara Vianna Dutra Braga falou sobre os aspectos jurídicos relacionados à proteção da infância e destacou a importância de utilizar todos os instrumentos disponíveis para garantir acolhimento e esperança às vítimas. “Precisamos utilizar todas as ferramentas possíveis para criar esperança”, afirmou. A promotora também falou do apadrinhamento afetivo: “O apadrinhamento afetivo é uma das mais belas formas de cuidado e solidariedade que podemos oferecer às crianças e adolescentes que vivem em instituições de acolhimento. Nem sempre o que eles precisam é apenas de assistência material; muitas vezes, precisam de alguém que os escute, incentive, acompanhe e demonstre afeto. Ter uma referência positiva, um vínculo de confiança e a oportunidade de conviver com outras realidades pode fazer toda a diferença em seu desenvolvimento emocional, social e educacional. Como psicóloga, sei o quanto os vínculos afetivos são fundamentais para a construção da autoestima, da segurança e da esperança. Por isso, precisamos divulgar e fortalecer cada vez mais iniciativas como essa, que aproximam pessoas dispostas a cuidar de quem mais precisa de acolhimento e oportunidades.”
Encerrando as palestras, a escritora Thanise Stein, autora do livro Bailarinas Também Choram, fez um forte apelo para que a sociedade enfrente o silêncio em torno do abuso infantil. “Erga a voz em nome daqueles que não podem falar. Não se calem. Omissão também é crime. Se eu tivesse tido acesso a uma palestra como esta quando era criança, eu teria falado”, declarou. Thanise também reforçou a importância do diálogo e da construção de relações de confiança com as crianças. “Não podemos ter medo de conversar sobre esse tema. Precisamos criar ambientes seguros, onde as crianças saibam que podem falar e serão acolhidas”, concluiu.

