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Comissão de Saúde da Câmara de Vereadores debate prevenção ao suicídio e pósvenção por proposição de Tanise Sabino

1 de setembro de 2026
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Por proposição da Vereadora Psicóloga Tanise Sabino a reunião da Comissão de Saúde e Meio Ambiente (COSMAM)  debateu o tema “Suicídio: o que podemos fazer antes que seja tarde?”, reunindo especialistas e representantes de entidades para discutir prevenção, escuta e pósvenção.

Ao abrir a reunião, Tanise destacou que a prevenção do suicídio precisa ultrapassar os limites do Setembro Amarelo e se transformar em compromisso permanente do poder público e da sociedade. “Estamos aqui para falar de um tema que não pode ser tratado apenas como uma pauta de setembro. Estamos aqui para falar de vida. E, quando falamos em promover a vida, estamos falando de saúde mental, de cuidado, de acolhimento, de pertencimento e, principalmente, de políticas públicas capazes de chegar antes que o sofrimento se transforme em uma situação de risco”, afirmou.

Presidente da Frente Parlamentar de Prevenção do Suicídio desde seu primeiro mandato, a vereadora defendeu o fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), a ampliação do acesso aos serviços e a qualificação dos profissionais. “Dizer para alguém ‘procure ajuda’ é importante. Mas a política pública precisa responder: onde essa pessoa será atendida? Quando será atendida? Quem vai acolhê-la? E quem vai acompanhar essa pessoa depois?”, questionou.

Na abertura, Tanise chamou atenção para a realidade do campo gaúcho, especialmente durante a semana da Expointer. A vereadora lembrou que, no ano anterior, produtores rurais levaram coroas de flores para a feira como forma de homenagear colegas que haviam perdido a vida, muitos deles em contextos de endividamento e desespero. “Quando falamos em prevenção do suicídio, precisamos falar também das condições de vida, das dificuldades econômicas, das dívidas, das perdas provocadas pelas crises climáticas e do sofrimento silencioso de quem sustenta a produção deste Estado”, afirmou.

A vereadora também alertou para uma nova dimensão desse problema: as apostas eletrônicas. “Quando a ludopatia transforma diversão em dependência, dependência em endividamento e endividamento em desespero, estamos diante de um problema de saúde pública que também precisa entrar na agenda da prevenção do suicídio”, destacou.

O diretor científico da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS), médico psiquiatra Lucas Primo, confirmou que profissionais da área têm observado mudanças no perfil de parte dos pacientes que chegam aos serviços de saúde após tentativas de suicídio.

Segundo ele, historicamente mais de 90% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais, mas as apostas on-line vêm trazendo uma situação nova. “Cada vez mais recebemos casos de tentativas por grande endividamento, motivados por bets, em que as pessoas ficam na mão de agiotas e encaram isso como uma vergonha”, relatou.

Primo ressaltou que muitos desses pacientes não apresentam histórico prévio de transtorno psiquiátrico. “É uma população nova que a gente também está aprendendo a conhecer”, explicou. Para o psiquiatra, a prevenção exige uma avaliação ampla, que considere não apenas a existência de ideação suicida, mas também fatores de risco, proteção, rede de apoio e acesso aos serviços de saúde. Ele também defendeu a qualificação das internações psiquiátricas para situações de risco iminente, articuladas posteriormente com a rede de atenção.

A psicóloga Gabriela Gehlen, representante da Associação Brasileira de Apoio aos Sobreviventes Enlutados por Suicídio (ABRASES), chamou atenção para uma dimensão muitas vezes esquecida nas políticas de prevenção: o cuidado com familiares, amigos e outras pessoas afetadas por uma morte por suicídio. Ela destacou que esse luto costuma ser acompanhado de estigma e sofrimento adicional. “Toda a ação técnica após o suicídio é uma ação de prevenção, pois nesse grupo atingido, seja família ou amigos, o risco de um novo episódio é aumentado”, ressaltou.

Gabriela explicou que a chamada pósvenção envolve ações de acolhimento e cuidado após uma morte por suicídio e pode alcançar não apenas familiares, mas também comunidades, instituições de ensino e pessoas que testemunharam uma ocorrência.

A psicóloga também alertou para a exposição de imagens de tentativas ou mortes nas redes sociais. Segundo ela, testemunhas, profissionais de segurança, bombeiros, equipes de emergência e outras pessoas expostas a essas situações também podem apresentar consequências para a saúde mental e nem sempre recebem acompanhamento.

Para a representante da ABRASES, é necessário reconhecer o luto como um direito e estruturar políticas públicas capazes de acolher as pessoas enlutadas. “Nós precisamos também olhar com cuidado para essa outra forma de prevenção, que é cuidar da dor do luto”, defendeu.

Representando o Centro de Valorização da Vida (CVV), Adriana Costa destacou que a prevenção do suicídio não é responsabilidade exclusiva dos profissionais de saúde. Para ela, a capacidade de escutar e estar presente pode fazer diferença no cotidiano. “O julgamento e a crítica contra quem está em dificuldades atrapalham muito”, afirmou.

Adriana apresentou o trabalho realizado pelo CVV, que oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e anônimo pelo telefone 188 e por outros canais de atendimento. Segundo ela, o serviço recebe milhares de contatos diariamente e tem observado aumento da procura por parte de jovens e também de pessoas que enfrentam dificuldades relacionadas às apostas.

A representante do CVV reforçou a importância de perceber mudanças de comportamento e oferecer acolhimento sem julgamento. “Fundamentalmente, as pessoas precisam saber que há formas de aplacar o sofrimento que não sejam acabar com a própria existência”, afirmou.

O lema do Setembro Amarelo deste ano, “Escutar é estar presente”, também foi destacado durante a reunião.

A coordenadora de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, Marta Fadrique, apresentou ações que vêm sendo desenvolvidas pela Prefeitura para ampliar o acesso à atenção em saúde mental. Segundo ela, Porto Alegre vem avançando na estruturação das equipes multiprofissionais na Atenção Primária à Saúde e na ampliação do acesso aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Marta destacou que a Secretaria está “quebrando a regulação para facilitar o acesso aos CAPS, com a modalidade de portas abertas”. Ela também ressaltou o papel das equipes multiprofissionais, que atuam nos territórios reunindo diferentes áreas profissionais e fortalecendo o cuidado comunitário. Durante sua participação, a coordenadora também reconheceu que as apostas on-line representam um fenômeno novo para a rede de saúde e que ainda é necessário compreender melhor seus impactos. Ela relatou que já chegam aos serviços pessoas que não apresentavam histórico de transtorno mental e que passam a apresentar sofrimento intenso associado ao endividamento e às apostas. Para Marta, a situação exige novas formas de abordagem e prevenção.

Ao encerrar a reunião, Tanise reforçou que a prevenção começa também nas relações cotidianas e na capacidade de perceber o sofrimento de quem está ao nosso lado. “Não precisa ser psicólogo, precisa ser humano. Nós precisamos ter essa habilidade de olhar para as pessoas, de enxergar o sofrimento, de perguntar como elas estão e realmente querer saber como elas estão”, afirmou.

A vereadora também defendeu que o debate iniciado na COSMAM tenha continuidade ao longo do ano e sugeriu a realização de um seminário mais amplo sobre a temática. “Promover a vida não é uma campanha com início, meio e fim: é um trabalho constante, uma escolha política. É uma responsabilidade pública. E é um compromisso permanente com cada pessoa que precisa ser lembrada de que sua vida tem valor”, concluiu.

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