O encontro reuniu representantes do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (CREMERS), da Associação de Psiquiatria do Rio grande do Sul (APRS), do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (SIMERS), do Ministério Público, do Hospital Psiquiátrico São Pedro, especialistas em dependência química e representantes do setor varejista para discutir um fenômeno que vem crescendo rapidamente no país e já mobiliza autoridades da saúde.
Na abertura da reunião, Tanise destacou que cerca de 11 milhões de brasileiros já apresentam comportamento de risco relacionado às apostas e que aproximadamente 1,4 milhão sofrem de ludopatia – transtorno reconhecido pela Organização Mundial da Saúde. A Vereadora psicóloga ainda frisou: “Nunca são apenas números. Quando uma pessoa adoece pela compulsão em jogos, dificilmente ela sofre sozinha. Sofrem os pais, os filhos, os cônjuges, os colegas de trabalho. Estamos falando de um problema de saúde pública que precisa deixar de ser invisível.”
A vereadora lembrou que as apostas esportivas foram autorizadas em 2018, mas permaneceram durante anos sem regulamentação efetiva, período em que o país assistiu à explosão das plataformas e ao crescimento da publicidade envolvendo atletas, influenciadores, clubes de futebol e emissoras de televisão. Segundo Tanise, assim como ocorreu no passado com o tabaco e o álcool, a sociedade ainda está começando a compreender os efeitos das apostas sobre a saúde mental.Ela também destacou que o Ministério Público do Rio Grande do Sul já vem tratando o tema com atenção, tendo promovido, em 2025, um seminário específico para discutir os impactos das apostas esportivas sob a ótica da saúde mental, da proteção do consumidor e da ordem econômica.
Outro ponto de preocupação apresentado pela parlamentar foi a ausência de dados consolidados na rede municipal de saúde. Embora a Secretaria Municipal de Saúde tenha informado a identificação formal de apenas três casos relacionados de ludopatia, Tanise alertou que muitos pacientes chegam aos serviços com ansiedade, depressão, conflitos familiares ou endividamento, sem que a adição à jogos seja a queija principal do atendimento.
Falando em nome do CREMERS e da APRS, a psiquiatra Dra. Silzá Tramontina lembrou que Conselho publicou, em maio de 2025, um parecer alertando para o crescimento da ludopatia e orientando os médicos a investigarem o envolvimento dos pacientes com apostas. Segundo ela, muitos casos acabam mascarados por outros transtornos: “Nossa orientação é que os médicos perguntem aos pacientes sobre apostas. Muitas vezes a verdadeira origem do sofrimento permanece escondida.” – salientou a Dra Silzá.
Representando o SIMERS, o psiquiatra Dr. Ricardo Nogueira afirmou que o país vive um momento crítico diante da rápida expansão das apostas esportivas. “Estamos bem no olho do furacão. Há três Copas do Mundo as bets tinham apenas uma cota de patrocínio. Nesta Copa, a maioria dos patrocinadores é de casas de apostas.”
O médico alertou para a exposição cada vez maior de crianças e adolescentes aos jogos on-line e afirmou que ainda não é possível dimensionar completamente os impactos sociais e econômicos provocados pelo fenômeno. Agradecendo à Vereadora Tanise por colocar a temática das bets em pauta, Nogueira deu força a fala da parlamentar: “O transtorno relacionado às apostas não é apenas uma doença individual. É uma doença que afeta toda a família e produz consequências econômicas e sociais que ainda não conseguimos dimensionar.” Segundo ele, há pacientes que abandonaram o trabalho para continuar apostando, recorreram a empréstimos com agiotas e desenvolveram quadros de ansiedade, depressão e ideação suicida. Nogueira também ressaltou que os recursos movimentados pelas plataformas deixam o país e pouco contribuem para a economia brasileira.
Especialista em dependências e coordenadora da Comissão de Psiquiatria das Adições da Associação Brasileira de Psiquiatria, a Dra. Carla Bicca apresentou estudos que estimam um custo social de aproximadamente R$ 38 bilhões por ano decorrente dos danos provocados pelas apostas. Ela destacou que adolescentes e pessoas em situação de vulnerabilidade financeira estão entre os grupos mais expostos ao desenvolvimento da dependência. Segundo a Dra Carla, embora a arrecadação do setor tenha aumentado após a regulamentação, apenas uma pequena parcela dos recursos é destinada ao tratamento das pessoas que adoecem. “A melhor política de tratamento é reduzir o número de pessoas que precisarão dele. Prevenção, detecção precoce e tratamento precisam caminhar juntos”. Carla Bicca afirmou que cerca de 1,8% das pessoas que são expostas ao jogo ficam adictas, por isto é preciso diminuir a visibilidade, com diminuição da publicidade.
O Procurador de Justiça Dr. André Marchesan, coordenador do Centro Operacional de Defesa do Consumidor e da Ordem Econômica do Ministério Público do Rio Grande do Sul, abordou o tema sob a perspectiva da defesa do consumidor. Segundo ele, as apostas precisam ser enfrentadas principalmente por meio da prevenção, da redução dos estímulos ao jogo e do aperfeiçoamento da legislação. “O apostador também é consumidor. Precisamos diminuir os estímulos ao jogo, especialmente por meio da publicidade, antes que os danos se tornem ainda maiores.”
Representando o Hospital Psiquiátrico São Pedro, a psicóloga Renata Brasil apresentou o protocolo desenvolvido pela instituição para identificação, acolhimento e tratamento de pacientes com transtorno relacionado às apostas, ressaltando a importância da detecção precoce e do fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial. A profissional relatou que entrou em um site de bets para que pudesse entender o caminho do apostador e assim ajuda-lo a sair: “Eu precisava entender todo processo para ajudar de forma mais efetiva. E também não basta apenas excluir o apostador: é preciso blindar toda a sua família.”
Também participou da reunião o médico psiquiatra Dr. Alceu Gomes Filho, que chamou atenção para a necessidade de ampliar a identificação desses pacientes na rede pública de saúde e evitar que recursos de benefícios sociais sejam utilizados em apostas.
Representando a Federação das Associações Gaúchas de Varejistas, Vilson Noer levou ao debate a percepção do setor sobre os impactos econômicos das apostas nas famílias brasileiras. Segundo relatos apresentados durante a reunião, supermercados já registram redução de aproximadamente 20% na venda de alimentos, reflexo do comprometimento da renda familiar com bets. Também foram relatados casos de trabalhadores que pediram demissão para quitar dívidas e situações extremas envolvendo tentativas de suicídio relacionadas ao endividamento provocado pelas apostas.
Entre os participantes da reunião, também fez uso da palavra a estudante de Direito Vitória Vargas, da Fundação do Ministério Público (FMP), cujo trabalho de conclusão enfoca as apostas esportivas.Ao parabenizar a iniciativa da COSMAM, ela destacou o elevado nível técnico do debate e defendeu regras mais rigorosas para proteger crianças, adolescentes e demais públicos vulneráveis. “Quero parabenizar esse debate multidisciplinar. Enquanto não houver consenso sobre a regulamentação, precisamos de normas mais severas e de restrições à publicidade voltada aos públicos mais vulneráveis.”
Ao encerrar a reunião, Tanise Sabino destacou que a COSMAM tem promovido debates permanentes sobre saúde mental, abordando temas como dependência química, prevenção do suicídio, riscos psicossociais no ambiente de trabalho e fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial.
A vereadora reforçou que a ludopatia precisa deixar de ser tratada como um problema individual e passar a ser enfrentada como uma questão de saúde pública. “Sabemos que existe tratamento, mas precisamos agir antes que ele seja necessário. A prevenção deve ser nossa prioridade. Quanto mais cedo aceitarmos essa realidade e fortalecermos nossa rede de cuidado, maiores serão as chances de proteger milhares de famílias.”

